Janaina Cruz

Os Relacionamentos e as provocações para mudanças

“Os Relacionamentos e as provocações para mudanças”

Essa entrevista foi concedida por mim há mais de um ano, para uma jornalista da revista Gloss.

Hoje mexendo nos meus textos a encontrei, e como muitos amigos me procuram para desabafar, trocar figurinhas e refletir sobre o tema , deixo aqui como uma proposta de leitura e abertura de consciência , além de ser uma resposta aos que me procuram com interrogações pessoais.
Espero que ajude e te alcance em algum lugar transformador dentro de você
Bjs da Jana

(Entrevistadora) 1. Entendemos que um relacionamento muda, positiva ou negativamente, praticamente todos os dias – na mesma medida em que cada pessoa também muda, positiva ou negativamente, todos os dias. Mas, às vezes, uma das partes do casal se sente na necessidade de mudar algo na relação ou no próprio par ainda mais. Por que surge esse desejo? O que pode, mais comumente, motivar uma pessoa a querer alterar algo além do esperado em um relacionamento afetivo?

(Janaina Cruz) – Somos seres marcados pela incompletude. Vivemos a vida em busca de algo ou alguém que nos preencha os vazios e necessidades!
É inevitável que mudanças ocorram no decorrer de uma relação, seja ela amorosa ou não. Compartilhar a vida com alguém é uma tarefa desafiadora que certamente nos levará a momentos de prazer e desprazer e as mudanças são naturais e necessárias.
Quando um dos pares sente maior e constante necessidade de mudança seja no outro,seja na relação, podemos pensar que esse desejo esteja se manifestando por dois motivos:
1. Insatisfação com o relacionamento constituído por base em projeções inconscientes
2. Insatisfação consigo mesmo, relacionado à questões com trabalho, rotina, escolhas e história de vida, depositando no outro a responsabilidade por isso.
Todos os relacionamentos são constituídos, principalmente num primeiro instante, por intensas projeções. Vemos no outro traços potenciais de nossa própria personalidade e com isso esperamos que este aja e pense de acordo com a imagem projetada, o que não acontecerá 100% do tempo, pois o outro não é somente aquilo que imagino e desejo, ele é , também, outras coisas.
Com o passar do tempo, essas projeções vão sendo recolhidas e vamos nos deparando com a realidade: a pessoa com quem me relaciono é diferente da pessoa por quem me apaixonei e fantasiei. Ela é uma pessoa real, com defeitos , vontades próprias, falhas e limites. Isso gera, na grande maioria das vezes, grandes conflitos e frustrações, pois espera-se que o parceiro seja capaz de compreender e acolher nossas vontades e transformar seus pensamentos e atitudes para que nossas necessidades emocionais sejam atendidas . Mas, nem sempre, ou quase nunca será assim.
A responsabilidade por minha felicidade e harmonia vai depender muito mais de como EU me relaciono com meu parceiro, de verdade ( não com o da fantasia) do que qualquer outra coisa É claro que ambos precisam estar abertos e dispostos a enfrentamentos e mudanças para que haja amadurecimento e equilíbrio na relação, mas precisamos estar atentos às expectativas que nos impedem de lidar com o que é real e possível.
É preciso nos perguntarmos: aquilo que eu quero depende somente da mudança do meu parceiro(a) para que nossa relação flua melhor? Como isso pode acontecer? Acredito que ele(a) está disposto(a) e tenha o mesmo desejo de mudar para melhorar nosso relacionamento? Isso vai ferir a individualidade dele(a)? Quais são os defeitos dele(a) que não suporto mais conviver, por que ? como posso lidar com isso? Quais defeitos eu compreendo e suporto? Por que? Ainda tenho amor e disposição suficiente para enfrentar outros conflitos a partir disso? Que sentimento tenho por ele(a) nesse momento?
Percebo que quando há um desejo intenso de mudar algo no outro ou fora de nós, paralelamente há um desejo e um movimento de mudança já acontecendo em paralelo dentro da pessoa e questionar-se a esse respeito é o principal caminho a seguir, nesses casos.
Para finalizar a reflexão dessa primeira pergunta, podemos pensar que tudo o que é “além do esperado”, sai da esfera do realmente possível, pois é fantasia e não realidade. Frustrações são proporcionais às expectativas: o tamanho de uma está diretamente relacionado à intensidade da outra. Expectativas nem sempre podem ser atendidas e/ou satisfeitas e faz-se necessário ter consciência disso.
Para um relacionamento equilibrado, o ideal é conhecer a si mesmo num processo de auto- desconhecimento. Aqui me refiro àquilo que não conhecemos a nosso próprio respeito, ou que até conhecemos, mas resistimos em atualizar ou ressignificar, para que possamos construir relações mais conscientes, equilibradas e harmônicas.

( Entrevistadora) 2. O que vale a pena tentar mudar no relacionamento em si? E o que não vale a pena?

(Janaina Cruz) – Acredito que, sempre, vale a pena mudar o ponto de vista, ampliar a compreensão a respeito de nós mesmos e reconhecer que existe outro diferente de mim e do que imagino, para que o relacionamento vá se firmando em bases mais sólidas e reais.
Veja: para nos relacionarmos precisamos estar dispostos a enxergar e compreender que o parceiro(a) trás consigo, assim como nós, um universo particular de vivências , histórias, experiências e marcas de vida. A partir disso, vale a pena desenvolver empatia, dialogar e fazer acordos para que conflitos sejam minimizados e a compreensão mútua seja constituída.
Acredito que não vale a pena esperar que o outro adivinhe nossos desejos, satisfaça todas as nossas mais íntimas vontades ,seja a salvação dos nossos problemas e o maior responsável por nossa completude e felicidade. Isso gera, além de dependência, desgaste , pois é difícil sustentar o peso da onipotência.A recíproca também é válida.

 

( Entrevistadora) 3. O que vale a pena tentar mudar no par? E o que não vale a pena? Uma pessoa é capaz de realmente mudar algo em sua personalidade ou em sua vida prol de um relacionamento amoroso?

(Janaina Cruz) – Nós só mudamos algo em nós e em nossa vida se assim verdadeiramente quisermos ou desejarmos e com o outro também é assim, não é diferente! Ninguém muda ninguém por vontade própria, imposição, manipulação ou desejo de satisfação pessoal. Isso pode vir a acontecer superficialmente, mas uma hora ou outra a verdade escapa pelos dedos ou explode pra todos os lados. O que acontece é que algumas pessoas se adequam, se reorganizam, cedem e se submetem a algumas alterações de comportamento para que haja harmonia e tranquilidade na relação e isso é sinal de maturidade e amor. É uma escolha baseada em um objetivo, vezes individual, vezes acordado entre ambos, porém, mudar a personalidade de alguém? Desconheço casos em que isso efetivamente ocorra e acrescento que desejar isso pode ser prejudicial, frustrante e perigoso.

( Entrevistadora) 4. Qual é a medida do saudável no querer mudar algo no relacionamento ou no par? Até que ponto se pode ir sem comprometer a felicidade e mesmo a sanidade das duas partes? Qual é o sinal de que está na hora de parar e desistir dessa mudança?

( Janaina Cruz) – É necessário compreendermos que assim como nós temos nossa própria individualidade, limites, necessidades, gostos, preferencias e manias, o outro também tem as dele. Personalidade é algo constituído, é intrínseco e está relacionado às nossas vivências pessoais:cultura familiar, desenvolvimento emocional, cognitivo, intelectual e moral.
Personalidade é a marca do individuo, tudo aquilo que caracteriza uma pessoa em sua singularidade. Querer mudar isso pode ser tarefa impossível e eu acrescentaria cruel. Clarisse Lispector tem uma frase que eu gosto muito e que ajuda a retratar o que quero dizer: “ até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
Se uma pessoa tem o desejo de mudar a personalidade de outra, convido a pensar: É realmente com essa pessoa que você quer ficar e dividir uma vida?
Vale a pena repensar, pois isso certamente comprometerá a felicidade de ambos. Esse pode ser um sinal de que é hora de parar e talvez desistir, por respeito a si mesmo, não somos onipotentes, e em respeito à individualidade do outro. Pode ser desgastante permanecer num relacionamento onde não somos aceitos por aquilo que somos em essência, cedo ou tarde aparecerá a falta de equilíbrio, paz e crescimento.

( Entrevistadora) 5. E, por fim, desistir da mudança significa desistir do relacionamento?

(Janaina Cruz) – Desistir da mudança pode ser a maior mudança do relacionamento, como também, o reconhecimento de seu fim. Tudo é uma questão de tempo, conscientizações, enfrentamentos, reconhecimentos e amadurecimento individual, respeitando a premissa de que assim como eu, o outro também tem seus sentimentos, confusões, desejos e limites.
Se relacionar com alguém é uma escolha diária, onde ambos de desconhecerão e se reconheceram entre si, e em si mesmos.

O relacionamento amoroso é uma construção. Quando essa construção apresenta falhas em suas estruturas é possível que ainda haja recursos para que sejam feitos reparos e ajustes resultando em estabilidade, fortalecimento e continuidade da obra. Porém, pode acontecer em alguns casos o fim de recursos ou até mesmo o esgotamento de todos eles, e aceitar a finalização pode ser mais saudável e inteligente do que continuar a obra e tudo desmoronar, cedo ou tarde, na própria cabeça.

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Janaina Cruz

Janaina Cruz, psicóloga conta com experiência de 10 anos de formação e atuação em atendimento clinico. TRAS seu repertório atual mais de 12 mil horas de escuta clínica, suporte, acolhimento e condução de pessoas que a procuram com as mais diversas queixas de dores e sofrimentos psiquicos e emocionais.

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